7.8.03

Eva Braun: uma psicografia não autorizada


IV


Nos anos 30 havia em Viena uma revista literária clandestina chamada Letras, Avante!, ou Letras, Sentido!, ou seria Letras, De Pé! ? Bom, não sei, já faz tanto tempo que seria ilusão supor que minha memória não viraria um arquivo em pó. Só posso dizer que não sei por que cargas d'água os editores de tão malfadada publicação queriam que eu publicasse lá minhas famosas receitas de Apfelstrudel. Diziam os doutos que minhas receitas eram modernistas. Ora, era notório que de culinária eu não entendia absolutamente nada. Além das tortas, minha especialidade, eu só sabia preparar as insossas sopas de batata que Goebbels me pedia para fazer porque apreciava o meu insosso. Como precisávamos dar exemplo de austeridade, toda vez que autoridades estrangeiras visitavam o país, eu era convocada à cozinha da Chancelaria do Reich para preparar a sopa. E de modernismo... bem, isto me parecia coisa de Ivans. Daí os tais editores levaram horas me explicando o significado de modernista. Não fiquei convencida. Para mim aqueles homens não eram mais do que loucos evacuados de uma tundra siberiana. Com os olhos saltando das órbitas e mãozinhas nervosas, eles me apontavam no papel a beleza estética da frase "Cozinhe 10 dúzias de maçãs em fogo brando" (minha receita para um batalhão). Eu quis dar logo por encerrada aquela lenga-lenga e afinal concordei com a publicação.
Meses depois, quando eu já dava a história por esquecida, numa bela manhã de outono eu fazia minha habitual caminhada solitária às margens do Danúbio e de repente fui interrompida por uma tropa de assalto do Führer me comunicando que eu recebera um telefonema urgente de Viena. Não é que eram os tais editores ensandecidos? (O que Viena não faz com as pessoas...) Em Berlim, por telefone, eles me disseram que haviam selecionado cinco receitas para serem publicadas no novo número da revista. Muito bem, e daí?, disse eu. E agora precisamos do seu currículo, Fraulein, eles disseram. Como é que é? Sim, Fraulein, ao lado das receitas, com a sua assinatura, gostaríamos de colocar alguns dados biográficos seus, para, hum, situar o leitor. Mas quem lhes disse que vou assinar as receitas? Pra quê? Qualquer pastora de ovelhas nesta velha República de Weimar tem uma receita de Apfelstrudel debaixo do avental! Por que eu? Mas, Fraulein, as receitas são criações suas, alguém fez o Apfelstrudel!, insistiam eles. Pois que todos se entupam de Apfelstrudel e me deixem em paz, eu não vou assinar porcaria nenhuma! Meu nome não pode sair nesta revista maluca de vocês! Querem que o Terceiro Reich me asse viva? Além do mais, quem se importa se sou alemã, albanesa ou extraterrestre? O que todos querem são as maçãs! As maçãs!!! Eu já estava ficando apoplética. Batia mecanicamente com meu salto alto no piso de tábua corrida e dava gritinhos ao telefone. Nein! Nee! Mas, Fraulein, é só um doce de maçã, que risco há nisso?, teimavam eles. Nem que fosse o Alcorão ou um rol de roupa suja, meu filho, eu não assino de jeito nenhum. Arranjem alguém aí que o faça, um ghost-writer morto de fome, um aristocrata falido, um médico de hospício, aí é o que não falta, sei lá, inventem alguém!
Dito isto, bati com o telefone e engoli uns três calmantes. Tanta impertinência me tirava do sério. Era só o que me faltava...
Três semanas mais tarde, recebi pelo correio a maldita revista, pronta. Folheei-a de cabo a rabo. Cadê as receitas? Nada. Miseráveis. Nem no rodapé! Fiquei descontrolada. Goebbels, o infame, reparando que eu, nervosa, sacudia e apertava a revista como se fosse espremê-la, aproximou-se de mim e, com seu sorriso de desdém tão peculiar, cochichou no meu ouvido:

-- Você achou mesmo que eles iriam publicar qualquer coisa sua que não tivesse a assinatura de Eva Braun?


-- para ler partes I a III desta "Psicografia", consulte Arquivo, março, 2003.