3.8.03

A confissão de Bernardo Vasques
(retirada do Arquivo das Confissões)

Existia na Igreja de São Paulo um Arquivo das Confissões, que ardeu no grande incêndio. Nele coleccionavam em segredo os padres jesuítas, amantes de práticas psicologistas, as confissões que lhes eram feitas pelos seus paroquianos e viajantes de passagem. Contudo, os padres eram igualmente obrigados a justificar a decisão de perdoar e as penitências aplicadas. Por um acaso do destino que não devo confessar, chegaram à minha posse alguns destes documentos que hoje tenho a ousadia de começar a revelar aos meus leitores. E que começo: Bernardo Vasques foi o canalha que roubou a Camões, na Índia, o manuscrito do Parnaso, o livro autobiográfico que o grande poeta tinha praticamente terminado. Camões sofreu uma dor imensa e não se apercebeu nunca das razões que poderiam levar alguém a cometer tão crudelíssimo acto. A dor desta perda e sequente consciência da maldade dos homens havia de o acompanhar até ao leito em que exalou o último suspiro.


"Senhor… roubei… não roubei a arca do Reino, nem a bolsa a viajantes, sequer me aproveitei do amor e confiança que em mim sempre a família depositou. Senhor… roubei um desgraçado…Senhor… roubei o ‘Parnaso’ de Camões. E Senhor… que desdita: não li uma única página que não se fixasse na minha memória como o ferro em brasa do remorso. Cada linha, cada blasfémia do poema, gradualmente se inscreviam em mim e nada mos fez esquecer. Bebi em todas as tavernas até o estomâgo ser da vastidão do planeta e a mente ter a dimensão acanhada da gruta do esquecimento. Tudo em vão. Joguei em todas as bancas de todos os portos e ganhei. Pelejei cego em mil batalhas… salvou-me a audácia dos desesperados. Um anjo maldito vigiava-me os passos para não me permitir um encontro simples com a morte. Os versos de Camões ressoavam sempre, emergiam nos meus lábios, sábios e pertinentes nas respostas, incitando ao silêncio na hora ténue do recolher. O Parnaso, que eu relia sem cessar, iluminava-me o mundo mas, ao mesmo tempo, transformava-me em alguém que a muito custo reconhecia. Toldou-se-me a memória da pesca, do manejo dos navios. Unicamente me ocorriam os versos do livro maldito e da boca, entredentes, escorriam-me imparáveis as estrofes imortais. Não houve, porém, maneira de copiá-lo com a minha letra e atribuir-me autoria: a pena rasgava o papel quando eu tentava firmar a mão trémula. Foi esta a minha penúltima infâmia. Esgotei praias em passadas ébrias de firmeza. Nas falésias rasguei o peito na rugosidade da rocha, criei sulcos de sangue que hoje alguém desatento confundirá com veios de cobre. Os desertos reconhecerão os meus lamentos. Nenhum porto bárbaro me embalou, à sombra vazia e cálida das palmeiras. Num acesso de maldade imensa, queimei o livro. As páginas maltratadas ardiam-me nas pupilas. Era o entardecer numa ilha ainda não identificada pelas cartas, um desses arquipélagos onde habitam os que se ocultam dos olhos do mundo. A fogueira encheu-me de uma alegria desmedida. Dancei como um selvagem, a boca seca e a razão perdida. Merquei uma mulher. Quando acordei no dia seguinte, sob o sol tórrido, não senti nada de estranho, nada de diferente: só um remorso singular, já não de roubar mas de matar. Percebi que não podia voltar a trás: cometera um acto abominável impossível de reparar. Soube que Camões viera até Macau. Procurei-o na ânsia de me fazer seu servo, mas quando atraquei já ele tinha partido. Passei ainda pelo suplício de encontrar os seus sinais um pouco por toda a cidade. Pressenti em muitos lugares ermos a emergência dos seus versos e o eco ténue de um suspiro, uma respiração entrecortada, a dor da perda que eu lhe infligira. Semanas depois da minha chegada chegou notícia de um naufrágio na foz do rio Mekong. Camões terá afogado as chagas em água barrenta. Por mim, aqui fiquei, desterrado, neste inferno de gente imensa e de língua incompreensível. Vi chegar e partir muita mercadoria, muitas esperanças. Só o meu remorso nunca partiu. Ficou aqui comigo, a roer devagar, nesta ponta de terra abandonada, maculada pelos homens e esquecida dos deuses."


-- Macau