12.7.03




O melhor que tenho a fazer

Estive pensando que devo escrever um livro. Tenho todas as condições necessárias para concluir o meu projeto:

1º) Quase todo escritor se isola para escrever um livro. Eu vivo em completo isolamento. Creio até ser portadora de um pouco ou muito de fobia social.

2º) É preciso ter tempo para escrever. Tempo é o que mais tenho. Tempo não é dinheiro. Falta de tempo é dinheiro. Portanto eu tenho todo o tempo do mundo ao meu inteiro dispor.

3º) Aquela frase "Fulano não pode ser interrompido, está escrevendo" vai muito bem em escritores de verdade, mas soa como falta de educação para quem está escrevendo a lista do supermercado ou fazendo o rol de roupa suja. Da próxima vez eu estarei escrevendo um livro, portanto não serei mal-educada.

4º) Geralmente escritores não se preocupam nem um pouco com aquelas coisas corriqueiras e chatas como "de que jeito vou pagar o aluguel". Todo escritor tem alguém que pague as contas, suponho, do contrário morreria de inanição antes de escrever o primeiro livro. A princípio, escritores não têm preocupações, senão não poderia escrever direito. Eu, determinantemente não me preocupo com nada, portanto...se alguém vier cobrar alguma coisa ainda tenho aquela frase: "Fulana está escrevendo. Não pode ser interrompida". Só espero que o cobrador entenda e não queira perturbar um gênio em criação.

5º) Escritor é excêntrico, estranho, e sai por aí com os cabelos desgrenhados e pode ficar até 3 dias sem tomar banho. Ninguém vai chamá-lo de porco. Ele é só um escritor. Ainda não fiquei três dias sem tomar banho, mas posso tentar.

As vantagens morais são relevantes e extraordinárias:

6º) Ninguém vai perguntar se já arranjei o que fazer ou me colocar a alcunha de vagabunda. Por mais que possa parecer estranho, escrever é trabalho sim. Pode até não ser remunerado, mas é. Pescador quando sai pro mar e não pega peixe nenhum também está trabalhando. Não é não?

7º) Se alguém perguntar "o que você faz?" vou ter alguma coisa mais concreta para responder em lugar de ficar procurando na memória qualquer uma das minhas aptidões sem efeito para justificar a minha total falta do que fazer.

8º) Por fim, se alguém perguntar por que não apareço nas festas da família, onde está enfiada aquela sua irmã, ninguém mais vai ter que inventar uma desculpa esfarrapada. Basta dizer: "Ela está recolhida escrevendo um livro" . Em lugar de "outra vez?", eles ouvirão orgulhosos: "É mesmo?". Pensando bem, se todos os argumentos acima não valerem, vale livrar a cara da família do vexame de ter alguém com o mesmo sobrenome que odeia festas.

Apenas um senão sem importância nenhuma: eu não sei, realmente, escrever. Refuto prontamente e com ardor: Paulo Coelho também não sabe e escreve sem vergonha nenhuma, inclusive é lido desavergonhadamente. Tão desavergonhadamente que está com os burros na sombra e toma chá na Academia Brasileira de Letras. Escrevo tão porcamente quanto ele portanto meu futuro está garantido e meus alfarrábios vão valer fortuna, se a premissa for válida. Eu acho que é.

A outra porcaria de senão é: sobre o que mesmo é que vou escrever?


-- Teruska.