Literatura Brasileira
Ninguém tem culpa de ter fobia, eu tenho fobia de literatura brasileira. Não é pose, não é atitude; antes fosse, porque não tenho nada contra poses e atitudes, são divertidas; mas fobia só é divertida para quem está de fora e vê o fóbico ficando pálido.
Tenho um misto de medo e asco pela literatura brasileira, é incontrolável; e o estranho no caso é que me sinto compelido a produzir aquilo de que tenho fobia, como alguém que tivesse medo de aranhas e todos os dias descobrisse, no travesseiro, os ovinhos de aranha que soltou de noite pela boca.
(É por isso que tento escrever livros sem cara de literatura brasileira – para não fazer xixi de medo ao olhar para o meu próprio livro.)
Por melhor que um escritor brasileiro seja, e reconheço que alguns são bons, não gosto dele (há exceções, nenhum deles brasileiro típico); e não adianta nada quando começam a falar “o Rosa, a Clarice, o Érico”, que me dá mais nojo ainda, e dessa vez justificado. Um escritor inglês de segunda me parece cheio de virtudes, um escritor brasileiro de primeira só me parece supostamente de primeira. É que o Brasil é feio mesmo, e ficar fazendo literatura disto é ser perpetuamente feio: ou engenhosamente feio ou grosseiramente feio.
Ouço uma voz argumentando comigo que é possível fazer arte sobre aquilo que é feio. Tenho ouvido muitas vozes ultimamente, elas vêm pelo sistema de comentários instalado no meu próprio corpo etérico (paranóicos são pessoas com sistemas de comentários na alma).
Mas é claro que é possível. De lama é possível fazer uma estátua de mulher linda e casar com ela. Mas my dear, para quê?
Duas coisas sobre a literatura brasileira. 1) Se perguntassem para um crítico mongol quais os cinco melhores romances do século vinte, e ele dissesse, Ang Ok li Po, Nah Pao Li Mah, Tchich Na Ma Gok, Fao Lin Sao Poi, e Ulisses, acharíamos graça. Agora vejam a lista dos melhores livros do século vinte, feitas por críticos e escritores e professores brasileiros, e levem muito a sério quando Os Sertões for mencionado. 2) A literatura brasileira está perpetuamente fixada numa coisa chamada brasilidade, que é tão relevante para o mundo como a monaquicidade ou a lichensteincidade. (E tão irreal quanto, e muito mais feia.)
Brasilidade! Viver no Brasil é como viver debaixo da ponte; o Brasil inteiro é um país tropical debaixo de uma ponte. É uma doença, uma halitose. A literatura brasileira é um contínuo ensaio sobre a halitose.
VOZES NA MINHA CABEÇA:
Voz 1 - Percebam o que esse cara está fazendo, ele está dizendo que ninguém mais na literatura brasileira presta, só ele...
Voz 2 - É revoltante.
Voz 3 - Não é revoltante, é risível. (Ri forçadamente) Ha ha ha ha.
-- Alexandre Soares Silva
Ninguém tem culpa de ter fobia, eu tenho fobia de literatura brasileira. Não é pose, não é atitude; antes fosse, porque não tenho nada contra poses e atitudes, são divertidas; mas fobia só é divertida para quem está de fora e vê o fóbico ficando pálido.
Tenho um misto de medo e asco pela literatura brasileira, é incontrolável; e o estranho no caso é que me sinto compelido a produzir aquilo de que tenho fobia, como alguém que tivesse medo de aranhas e todos os dias descobrisse, no travesseiro, os ovinhos de aranha que soltou de noite pela boca.
(É por isso que tento escrever livros sem cara de literatura brasileira – para não fazer xixi de medo ao olhar para o meu próprio livro.)
Por melhor que um escritor brasileiro seja, e reconheço que alguns são bons, não gosto dele (há exceções, nenhum deles brasileiro típico); e não adianta nada quando começam a falar “o Rosa, a Clarice, o Érico”, que me dá mais nojo ainda, e dessa vez justificado. Um escritor inglês de segunda me parece cheio de virtudes, um escritor brasileiro de primeira só me parece supostamente de primeira. É que o Brasil é feio mesmo, e ficar fazendo literatura disto é ser perpetuamente feio: ou engenhosamente feio ou grosseiramente feio.
Ouço uma voz argumentando comigo que é possível fazer arte sobre aquilo que é feio. Tenho ouvido muitas vozes ultimamente, elas vêm pelo sistema de comentários instalado no meu próprio corpo etérico (paranóicos são pessoas com sistemas de comentários na alma).
Mas é claro que é possível. De lama é possível fazer uma estátua de mulher linda e casar com ela. Mas my dear, para quê?
Duas coisas sobre a literatura brasileira. 1) Se perguntassem para um crítico mongol quais os cinco melhores romances do século vinte, e ele dissesse, Ang Ok li Po, Nah Pao Li Mah, Tchich Na Ma Gok, Fao Lin Sao Poi, e Ulisses, acharíamos graça. Agora vejam a lista dos melhores livros do século vinte, feitas por críticos e escritores e professores brasileiros, e levem muito a sério quando Os Sertões for mencionado. 2) A literatura brasileira está perpetuamente fixada numa coisa chamada brasilidade, que é tão relevante para o mundo como a monaquicidade ou a lichensteincidade. (E tão irreal quanto, e muito mais feia.)
Brasilidade! Viver no Brasil é como viver debaixo da ponte; o Brasil inteiro é um país tropical debaixo de uma ponte. É uma doença, uma halitose. A literatura brasileira é um contínuo ensaio sobre a halitose.
VOZES NA MINHA CABEÇA:
Voz 1 - Percebam o que esse cara está fazendo, ele está dizendo que ninguém mais na literatura brasileira presta, só ele...
Voz 2 - É revoltante.
Voz 3 - Não é revoltante, é risível. (Ri forçadamente) Ha ha ha ha.
-- Alexandre Soares Silva

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