13.7.03

Ah como compreendo os transsexuais. Nascem com sentir e atitude de mulher num corpo de homem; e vice-versa.
Compreendo-os porque padeço de um mal semelhante. Ah como eu gostava de ter nascido Marquês, ou ir à ópera e ouvir dizerem-me: Sr. Comendador isto, Sr. Comendador aquilo. E de viver num mundo de glamour, oferecer às top-models anéis de diamantes, beber champagne e fumar Cohibas na minha limousine, vestir nos melhores costureiros, sapatos italianos, golf, aparecer na Caras a almoçar no saloio e very tipical Gigi, ter um jacto e uma ilha, uma herdade com trinta puros lusitanos, casa de praia e de montanha e em Courchevel e em Paris e New York... Sei lá, nem sei bem o que tenho. E o meu escritório - onde nunca vou, aliás - ser imensamente, mas imensamente, melhor que a Penthouse da Segurança Social do Algarve, recheado com doze secretárias e quinze assessoras de mini-saia e wonderbra. Uma vida de diletante, interessar-me por arte, ser dono de uma colecção riquíssima, mas riquíssima mesmo, de pinturas, escrever as minhas memórias aos quarenta anos, fazer fotografia submarina nas caraíbas e caçar leões no Quénia. Tenha a bondade Sr. Presidente, faça o obséquio Sr. Governador.
Que vida a minha! Só gosto de coisas caras, quando gosto de alguma coisa e me apetece comprar, como por mau-olhado, é sempre caríssima! Uma vez em Veneza vi, numa loja, uns óculos, enchi-me de coragem, entrei, a menina diz: uma mole de milhões de "liri"; saí com o rabinho entre as pernas, optei por continuar de férias. Gosto da etiqueta Gant, mas já que não posso comprar o catálogo todo, não tenho nem uma peça.
E as pessoas confundem-me com um avarento, porque não me compreendem; já que não posso comprar o que gosto, não compro nada.
Não haverá nenhum procedimento cirúrgico ou, até, uma terapia génica para eu me transformar no grande Gatsby cá da minha terra?


-- Impressões de um Boticário de Província