15.6.03

Vicente Gunz chama-me para ver a lavadeira Ana Blúmia às margens do Arrudas. Ana Blúmia canta e lava, lava e canta, acocorada nas margens da água espessa. Lava suas rendinhas, seus bordadinhos, suas fronhas de riso e lágrimas. As águas descem. Pelas águas descem restos de extratos bancários, restos de suflês, projetéis, canos de espingardas, pneus, uma gravata de deputado, um par de sapatos de um magnata, manchados de sangue. Ana Blúmia canta e lava, lava e canta. E os bem-te-vis também cantam nos telhados de Belo Horizonte.
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Vicente Gunz é quem diz nesta manhã de garoa: "Pobres filhos pobres da poesia do Leminski".
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Leio na edição de hoje do SENTINELA DORMINDO que o poeta Joaquim Vírgula faz, desde a semana passada, um protesto na Rua Leopoldina. Segundo o jornal, Joaquim Vírgula empurra, rua acima, um pacote com duzentos quilos de poemas. Assim que chega aos altos do Santo Antônio, o poeta solta o pacote morro abaixo e recomeça a subida, interminavelmente, desde a esquina de Benvinda de Carvalho. “Sou o Sísifo dos tempos modernos”, diz ele. “Tudo o que escrevo, há mais de vinte anos, permanece inédito. Enquanto não for publicado, estarei aqui, rua acima e rua abaixo, em protesto pelo modo com que tratam os poetas”. Na segunda-feira, de acordo com a reportagem, o pacote quase atropelou uma madame que voltava da feira com uma sacola de alfaces.


-- A Volta de Kafka em Belo Horizonte