5.6.03

Alguém aí tem uma mãe que os atormenta? Que reclama o tempo todo? É, eu também. Mas a convivência com algo tão irritante e incômodo tem duas conseqüências comuns: a loucura ou o costume. No meu caso foi uma mistura dos dois, mas hoje eu gostaria de falar como me acostumei com aquela vozinha que soa constantemente as mesmas notas.

Eu desenvolvi uma espécie de filtro. O cérebro, exposto a algo que o desagrada, desenvolve boas defesas. Vejam como ele funciona. Minha mãe fala:

– De novo no computador?! Você nunca sai desse computador! Nunca ajuda na casa!! Tem louça acumulada na pia, só eu que tenho que lavar? Pra quê que eu fui ter filhos, meu Deus!?!?

Eu ouço:

– Mi mimi mi mimimimimimi?! Mimi mimi mimi mimi mimimimimi! Mimimi ajuda na mimimi!! Mimi louça mimimimi mi mimi, mi mi mimi mimi mimi mimi? Mimi mimi mi mimi mimi mimimi, mimi Mimi!?!?

Eliminando os ruídos, fica assim:

– Ajuda na louça?

Claro que, para conservar a relação (ou pelo menos a aparência dela), um filtro de saída foi desenvolvido. Ele barra qualquer coisa desagradável que eu possa falar, como também regula o tom e o volume de minha voz. Então a resposta, que deveria sair assim

– Você não pára de reclamar um minuto! Não percebe que eu tô trabalhando aqui no computador? Ah, chega, desisto, não dá pra fazer nada desse jeito, EU LAVO A MALDITA LOUÇA, TÁ BOM!! QUE SACO!!!

fica assim:

– ---- --- ---- -- -------- -- ------! --- ------- --- -- -- ----------- ---- -- ----------? --, -----, -------, --- -- --- ----- ---- ----- -----, eu lavo a ------- louça, tá bom. --- ----!!!

Percebam que o filtro alterou o tom da resposta. No final ela ouve algo só isso:

– Eu lavo a louça, tá bom.

Com o tempo o filtro (apenas o de saída) foi tomando conta da minha comunicação. Não consigo mais ser rude com as pessoas. Melhor pra mim, pior pra mim.


-- No One Knows