22.6.03

Acabei o café, apaguei o cigarro, paguei e dirigi-me ao encontro do indivíduo da imobiliária , que me iria mostrar o apartamento para alugar. Já estava atrasado e duvidava que ele ainda estivesse à espera.
Não conhecia bem a parte da cidade onde, possivelmente, iria morar. Ficava na parte oeste, a zona mais antiga da cidade, que a partir daí se ramificou absurdamente.
Já na Rua da Misericórdia procurei o número 72. Caminhei até encontrar a porta e deparei com um edifício de aspecto sinistro, a precisar de cuidados exteriores. Empurrei a porta de entrada que, como esperava, rangeu e mergulhei na escuridão. Tentei encontrar um interruptor, mas tal tarefa revelou-se infrutífera. Deixei que os olhos se habituassem à escuridão e procurei a escada.
Subi e, ao chegar ao primeiro andar, deparei com uma velhota, em camisa de noite, com o cabelo desgrenhado que olhou fixamente, dizendo: -“Você deve ser o novo blogger. Vai gostar de viver aqui, de certeza. Mas o que vai apreciar mesmo é a vista das suas janelas!” – e a velha desapareceu na escuridão, no meio de um sorriso medonho, demasiado cinematográfico para ser real.
Continuei a subir até alcançar o segundo piso. À porta da habitação, o homem da imobiliária sorria, como se a espera não lhe tivesse custado. –“Entre! Entre, Sr. Aniceto! Venha conhecer esta maravilha!” . Os minutos seguintes foram inenarráveis: uma casa a precisar urgentemente de obras e o tipo a tentar iludir-me, com um discurso surreal acerca da beleza do espaço, até que uma frase sua me chamou verdadeiramente a atenção: “Sabe, Sr. Aniceto, se ficar com a casa vai ficar também com uma vista fabulosa sobre a cidade!”
Incomodado, decidi dar uma volta pelo resto da casa, constatando a degradação mais que evidente. A certa altura, num dos quartos notei uma saliência no rodapé. Movido por uma inusitada curiosidade, apreciei melhor tal saliência. Dei uma pancada e o som devolvido fez-me ter a certeza que aquela parte era oca. Dei um chuto o rodapé, que cedeu, dando lugar a uma concavidade. Ajoelhei-me, espreitando, e introduzi a mão para alcançar o que me parecia ser um pedaço de papel. A minha descoberta era mesmo um papel, mas dobrado, que prontamente abri e li:

“Na cidade de Palaguín
o dinheiro corrente eram olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
que frequentavam aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de «era uma vez»...
Havia hospitais repletos
onde à porta o pus escorria para as valetas;
Havia janelas que nunca se abriam
e prisões descomunais sem portas;
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida;
Havia cães enormes e famélicos
devorando mortos insepultos e voantes;
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade;
havia gente bebendo sofregamente
a água dos esgotos e das poças;
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.

Na cidade de Palaguín
havia crianças sem braços e desnudas
que brincavam em pântanos e abismos;
Havia ardinas que à tarde anunciavam
a falência do jornal que vendiam;
Havia cinemas onde o preço de entrada
era o sexo dum adolescente
(as mães cortavam os sexos dos filhos
para verem cinema)
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo;
Havia pobres que somente aceitavam como esmola
sacos de ouro de trezentos e dois quilos;
E havia ricos que pelos passeios
imploravam misericórdias e chicotadas;

Na cidade de Palaguín
havia bêbedos emborcando ácidos
e retorcendo-se em espasmos na valeta;
Havia gatos sedentos
que iam beber leite aos seios das virgens;
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
Havia velhas que se suicidavam
atirando-se das paredes para o meio da multidão;
Havia balneários públicos
com duches de vitríolo – quente e frio
- a população banhava-se frequentes vezes...
Na cidade de Palaguín
havia Havia HAVIA

Três vezes nove um milhão!” *

Dobrei cuidadosamente o manuscrito, dirigi-me ao tipo da imobiliária e com uma certeza inabalável disse-lhe que aceitava a casa.

* Carlos Eurico da Costa