20.4.03

Quando repasso atentamente minha infância, me dou conta de que minha memória das palavras começa muito antes da minha memória da carne. Na pessoa comum, imagino, o corpo vem antes da linguagem. No meu caso, antes vieram palavras. Depois -- pé ante pé, com toda a aparência de extrema relutância e já vestida de conceitos -- veio a carne. Já estava, nem é preciso dizer, estragada pelas palavras.
Primeiro vem o pilar de madeira pura, depois os cupins que o comem. No meu caso, os cupins já estavam lá desde o começo, e o pilar de madeira pura só emergiu mais tarde, já meio carcomido.
O leitor que não me censure por comparar minha atividade com a do cupim. Em sua essência, qualquer arte que se baseie em palavras faz uso do poder que elas têm de carcomer -- sua função corrosiva -- assim como gravar em metal depende do poder corrosivo do ácido nítrico. Mas o paralelo ainda não está exato o bastante: o cobre e o ácido nítrico usados na gravação estão de acordo entre si, os dois oriundos da natureza.
A relação entre as palavras e a realidade não é a mesma que existe entre o ácido e a placa de metal. Palavras são um recurso que reduz a realidade a uma abstração que nossa razão possa aceitar, e em seu poder de corroer a realidade inevitavelmente insinua-se o perigo de que as próprias palavras também sejam corroídas. Melhor, na verdade, comparar sua ação com o excesso de sucos estomacais que digerem e, pouco a pouco, acabam por carcomer o próprio estômago.
Muitos expressarão sua descrença em que tal processo pudesse já estar em ação nos verdes anos primeiros anos de uma pessoa. Mas foi isso, sem sombra de dúvida, que me aconteceu, lançando as bases para duas tendências contraditórias que batalham dentro de mim. Uma, a gana de levar em frente, com lealdade, a função corrosiva das palavras, e disso fazer a obra da minha vida. A outra, o desejo de me encontrar com a realidade em algum ponto onde as palavras não tivessem nenhum papel a desempenhar.


-- Yukio Mishima, em "Sol e Aço".