18.3.03

Eva Braun: Uma Psicografia Não Autorizada

II


Não era novidade para ninguém, muito menos para mim, que, de todas as jovens de raça ariana pura, o Führer escolheu a mim por me julgar a mais estúpida e obediente. Aquele filho de fiscal de alfândega, née Senhor das Trevas, o Líder Supremo, julgava-me então uma avezinha frágil em suas poderosas mãos, uma Barbie de Weimar que ele carregava para cima e para baixo em Berchtesgarden, nosso retiro na Baviera. Eu, fingindo-me de tonta, posava para fotos ao lado dele e de seus "homens fortes": Goebbels (um intelectual arrogante), Himmler (psicopata da vida cotidiana), Rommel (sempre cheirando a camelo), Ribbentropp (que mania de beliscar minha bunda), Goering (com o mau hálito sempre pronto para invadir qualquer espaço aéreo) e Leni Riefenstahl (uma moçona de ferro com suas lentes penianas filmando a tudo e a todos, desde que o ângulo fosse perfeito).
Em nossos jantares vegetarianos, eu costumava prestar atenção em tudo: nas conversas, nos tiques nervosos, nos silêncios, no timbre das gargalhadas, nos olhares trocados e, principalmente, no não-dito. Sempre desconfiei que nas reticências é que residem as grandes traições da história. Acordos eram selados de uma só penada, para serem desfeitos no dia seguinte com uma troca de olhar. Pactos eram firmados com apertos de mãos e discursos, para serem rompidos com um meneio de cabeça. Stalin sem dúvida foi uma das vítimas destes silêncios do Führer. Por isso, sempre que eu me encontrava ao lado do meu amado, procurava o máximo possível ocupar a sua mente com uma tagarelice improvisada. Não queria dar espaço ao silêncio. E se sobrasse para mim?
Houve apenas uma vez em que o Führer quase perdeu as estribeiras comigo. Aconteceu numa gélida noite do inverno alpino. Estava eu tranqüilamente recostada em minha chaise-longue na frente de nossa lareira, lendo Crime e Castigo, quando o Líder chegou acompanhado de Goebbels (sempre ele) e aproximou-se por trás de mim para bisbilhotar o que eu estava lendo. Sua expressão de repulsa, ao constatar minhas preferências literárias, só não foi maior do que a expressão de nojo estampada na cara naturalmente nojenta de Goebbels. Os dois trocaram um sorriso de escárnio e se afastaram para continuar o assunto que estavam discutindo. O tom de voz de ambos era até então sereno, o Führer só se exaltando quando pronunciava as palavras Guerra Total, assim juntinhas. Nesses momentos ele chegava a gritar. Toda vez que esta frase era alçada, vinha em urros -- GUERRA TOTAL. GUERRA TOTAL. Meus ouvidos já estavam doendo com aquilo e resolvi interferir:

-- Querrrido, o que é Guerra Total?

Meu Führer e Goebbels olharam para mim boquiabertos e depois retomaram a conversa só deles. Os gritos continuaram. Eu insisti.

-- Querrrido, quem é Guerra Total?

Adolf, controlando sua raiva, virou-se para mim e disse, os dentes cerrados:

-- Evinha, meu Apfelstrudel, Guerra Total é um conceito.

Eu assenti, balançando minhas mãos cobertas de jóias da coroa russa, e disse a ele:

-- Ja, entendi, tudo é uma questão de culturrra...

E foi nesse exato momento que Goebbels, dominado pela cólera, me interrompeu para pronunciar a famosa frase cuja autoria seria erroneamente atribuída a ele tempos depois:

-- Toda vez que ouço falar em cultura, tenho gana de puxar um revólver!