31.3.03

Eva Braun: Uma Psicografia Não Autorizada


III


Enquanto eu cavalgava aquela coisa enorme e dura ao som de O pássaro de fogo de Stravinsky girando no gramofone, as tropas do Führer se acercavam de Paris. "Monique, Monique, rebola minha querrida", era assim que ele me chamava nas horas em que eu enterrava meu corpo no seu. Tinha a mania de, durante o sexo, chamar-me com nomes de prostitutas francesas. Há meses que ele não me procurava na cama e eu já andava desconfiada de suas intermináveis revistas às tropas sempre tarde da noite. Ele voltava cheirando a charuto e bebida barata. Mas nesse dia da invasão de Paris, Adolf estava inusitadamente feliz e resolveu fazer comigo uma Blitzkrieg doméstica. Confesso que naquela noite eu já estava cansada e umas duas doses acima. A semana inteira vira soldados e oficiais indo e vindo apressados pelos corredores, sucessivas reuniões até altas horas da madrugada, sem que eu soubesse que, secretamente, o alto comando estava articulando a ocupação da França. Pobre França... Agora eu entendia por que ele ultimamente vinha me chamando de Madame Pompadour! Eu devia ter entendido os sinais. Ora, ele dominaria a França afinal. Dali para o resto do mundo seria um pulo! Até onde iria sua ambição napoleônica? Que territórios mais lhe seriam suficientes para saciar sua fome de poder? Em nossas horas de intimidade eu costumava dizer-lhe que aquela maldita guerra estava nos afastando. Por que as coisas tinham de ser assim? Adolf então tomava meu queixo em suas mãos e, mirando fixamente os meus olhos, sussurrava: "As coisas são o que eu digo que são." Depois me abraçava com formalidade, garantindo que o seu amor por mim só não era maior do que a dívida pública. E era então que eu me perguntava por que um homem tão expansionista como ele só se limitava a ter uma mulher ao seu lado. Afinal nossa "comunidade étnica" era tão bem servida de beldades... Sim, porque eu sabia que não havia outras na vida dele. Eu gastava milhares de marcos para me manter bem informada de seus passos. Meus espiões secavam minhas economias. Se a Gestapo por acaso descobrisse que eu andava espionando as ausências do Führer, certamente faria a minha caveira com ele. O que, no entanto, significaria um risco para eles também, porque se não conseguissem provar nada contra mim, meu amado não pensaria duas vezes em cortar-lhes a cabeça. E sem guilhotina!
Ah, mas naquela noite de amor eu havia encarnado a própria Hipólita. E na qualidade de rainha das Amazonas, eu cavalgava com determinação e sem temor. E eu tinha pressa, pois a qualquer momento minha montaria poderia perder o ímpeto. Se ele porventura se distraísse e o pensamento de táticas e estratégias dominasse sua mente, a pistola fria e dura negaria fogo e eu ficaria mais uma vez a ver navios. Porém isso não aconteceu e após alguns minutos de sôfrega cavalgada, eu atingi o ápice do prazer. Uma loucura! Meu Führer suava pois não havia tirado o uniforme. Após o gozo, eu caí ao seu lado, ainda tonta de prazer, ele afagou meus cabelos desatentamente e recolocou a pistola no coldre depois de recarregá-la com as balas que havia deixado sobre o criado-mudo:

-- Durma bem, Fraulein.