2.2.03

Camões para Normais


Todo mundo tem um amigo ou pelo menos conhece alguém que quer ser escritor e que deseja fazer da literatura uma forma de alpinismo sociocultural. Arrogantes, blasé e auto-referenciados, julgam que por dominarem um universo lingüístico mais dilatado do que o dos comuns normais possuem um pensamento mais sofisticado, um raciocínio que pode se provar equivocado. Como em geral eles adoram, em conversas informais, fazer citações de autores de que você nunca ouviu falar (os nomes abreviados tipo W.C. Fulano, W.H. Sicrano, ou D.H. Beltrano são os preferidos), não se sinta mais constrangido. Tasque logo um Camões na conversa que eles podem até lhe fazer o favor de calar a boca para ouvi-lo. Quantos deles sabem realmente o significado das estrofes mais conhecidas de "Os Lusíadas", por exemplo? Veja aqui e não perca tempo. A vingança é doce.

As armas e os barões assinalados (= homens ilustres)
Que, da Ocidental praia Lusitana, (= Portugal)
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana, (= nome clássico da ilha de Ceilão)
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram; (= império português na Ásia)

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas (= privadas da religião cristã)
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas (= feitos)
Se vão da lei da Morte libertando: (= esquecimento)
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte. (= eloqüência)

Cessem do sábio Grego e do Troiano (= Ulisses e Enéias)
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano (= Alexandre Magno; Trajano, imperador romano)
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano, (= o valor português)
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta, (= Poesia)
Que outro valor mais alto se alevanta.