31.1.03

Já passava da meia-noite. Passava da meia-noite e chovia fino, o que para mim não significaria nada se não estivesse chovendo há mais de três dias. A louça sobre a pia ia desaparecendo peça por peça enquanto eu recheava os armários da cozinha. Xícaras à direita, pratos à esquerda, panelas no alto, copos e talheres embaixo. Na mesa das refeições apenas a minha sombra dividia o espaço com garrafas vazias. Estaria mentindo se dissesse que estou com sono. Eu não sabia mais o que era dormir, embora não me faltassem silêncio e tudo o que pudesse imaginar para dar forma a uma boa noite de descanso. Cortinas fechadas, luzes baixas, poltronas de almofadões, sofás convidativos, televisão acesa e muda, cobertores espalhados pelo chão, tapetes felpudos e ninguém mais. Ainda assim alguma coisa parecia me impedir de pregar o olho. Alguma coisa de que eu não me dava conta mas que no entanto estava lá. Há muito tempo. Tempo suficiente para me incomodar, me perturbar as horas, atrapalhar meu banho, amarrotar minhas roupas, embaçar meu espelho, azedar minha comida, esfriar minha cama. E eu sabia que era alguma coisa que não fazia barulho ao andar, embora andasse. Que não batia à porta, embora entrasse. Que não conversava comigo, embora falasse. Alguma coisa medonha, de hálito medonho e medonha geometria. Alguma coisa que já havia se transformado em sensação, uma sensação desprezível, ao mesmo tempo intrusa e vazia, como se eu tivesse recebido a notícia de uma tragédia na qual não tomara parte. E a sensação estava lá. Acompanhando meus passos pela casa. Infiltrada nas paredes, bastava tocá-las. Misturada na água, fervida nos temperos, evaporando dos perfumes, na trama das toalhas, na superfície dos capachos, nas fotos de casamento, nas dobras dos lençóis, nas páginas dos livros, na gaveta das meias, nos brinquedos pelo chão, na garrafa térmica, nas chaves do carro, nas fotos dos filhos, nos diálogos dos personagens, na roupa lavada, na tinta da caneta, nas folhas do calendário, nos fios de tampax, nos telefonemas, nos dias de festa, no cheiro de gordura, no sol refletido nas lentes, nas quinas dos móveis, nos bicos de gás, nos cremes hidratantes, nas contas de luz empilhadas, no mofo, nas fotos dos netos, nas janelas empenadas, na caixa de costura, nos sacos de supermercado, nas flores secas, no pêndulo do relógio, nas receitas de remédios. Estava lá. E me acompanhava sem estar ao meu lado. Eu podia sentir suas mãos firmes se fechando sobre as minhas e me levando para dentro de sua casa. Uma casa onde as noites chegam de repente e não há fila de espera. Uma casa comum, numa rua como as demais. Uma casa comum mas com uma única diferença, e essa diferença distraía minhas horas.