17.1.03

De modo algum eu revelaria o meu nome a vocês. Por dois motivos. Primeiro, e menos importante, porque ele é muito idiota. Pior do que burros, meus pais eram preguiçosos. No dia em que nasci, eles ligaram a TV do quarto do hospital e escolheram para mim o nome do morto célebre do dia. Sorte que era mulher, eu gostaria ainda menos se me chamassem por aí de Louis de Funès. O segundo motivo é aquele que diz que uma mulher não deve vir a público confessar suas intimidades, o que estou prestes a fazer neste exato momento. E não deve fazê-lo muito menos por escrito, o que dá à confissão um caráter de revelação oficial, inapagável. Mesmo assim, estou decidida a fazer tudo por escrito, embora não seja escritora. O fato de ter uma idéia na cabeça e um laptop à mão não faz de mim uma escritora, embora tenha gente que não pense assim. Como quase todo mundo, sou uma Homo sapiens alfabetizada. E já me dou por satisfeita. Faço questão de manter o meu narcisismo em rédea curta e assim livro os outros do inconveniente de ter de me dar respostas positivas a tudo que faço. Não pensem que é fácil. Mais difícil é abrir mão das reservas e me expor completamente aqui. De que forma introduzir o assunto? É um tema mundano que poucos homens abordam, quase sempre em tom de piada, para disfarçar o constrangimento ou para agredir propositadamente ouvidos puritanos. Mulher então, nem se fala. Sim, porque eu nunca vi uma mulher dizer com todas as letras que peida. Ufa, pronto. Saiu. Consegui afinal. É isso. Totalmente despida das vaidades mais pessoais, eu confesso que peido. E não é pouco. Peido pela manhã, à tardinha e à noite. Peido sempre que me sinto compelida a peidar. Peido na intimidade do meu banheiro, em ambientes semi-abertos e ao ar livre. Peido sem preconceito de tempo e espaço. E como se meus flatos tivessem mais urgência do que eu em cumprir o seu próprio destino, eles me convocam nas horas e lugares mais absurdos só para pôr à prova a minha coragem de extravasá-los. Numa reunião de condomínio, no cinema, numa pool-party, segundos antes do orgasmo, durante um brainstorming, na decolagem do avião, dentro de elevadores, na cadeira do dentista, descendo o Pelourinho, num almoço de negócios, num jantar em família. A princípio eu os interpretava como puros sinais de nervosismo. Tensão acumulada. Estresse. Mas com o tempo fui percebendo que eu peidava sob a pressão de quaisquer circunstâncias. Favoráveis ou não. Peidava de alegria e peidava de tristeza. Tudo era motivo para peidar. Falando assim, posso estar dando a impressão de uma personalidade compulsiva e abjeta. Nojenta mesmo. Mas não. Nunca me encarei desta forma. Nunca ninguém me encarou desta forma, pelo menos até o momento em que escrevo estas confissões. E sabem por quê? Porque antes de tudo, sou uma flatuosa discreta, anônima. Aqueles que me cercam certamente já desfrutaram o odor de minhas entranhas, mas jamais souberam localizá-lo. E mesmo se soubessem, dariam a importância que dão à atmosfera de Cubatão. Isto é dizer, nenhuma. Representantes privilegiados de uma classe média em órbita, meus amigos só sabem distinguir os perfumes pelo preço. Para eles só o que é barato fede. E como eu sou relativamente bem-sucedida e bem relacionada, o que os torna doentiamente dependentes da minha proximidade, para eles eu sou sempre cheirosa. E sou mesmo. Ninguém pode negar. Pode-se conhecer uma pessoa pelo cheiro. E ainda hoje, apesar da globalização, pode-se conhecer a nacionalidade de uma pessoa pelo cheiro. Os húngaros cheiram a cebola. Os armênios cheiram a carne crua. Os gregos têm cheiro de alho e iogurte. Os portugueses cheiram a chouriço e pão-de-ló. E os belgas, a roupa suja. Já os meus cachorros têm cheiro de roupa recém-passada. E eu, antes que me perguntem, tenho cheiro de sol. Um sol tão agradável ao olfato que até me esqueço que o que me trouxe aqui foi um motivo tão torpe. E você? Tem cheiro de quê?