19.1.03

genealogia da fome - depoimento "Tu Saiu de Onde?"



Para Quem Gosta de Histórias de Família


A Vila Ipiranga é um bairro de Porto Alegre e lá tem uma rua chamada Pascoal Parulla. Este senhor era meu avô materno e virou nome de rua porque em meados do século 20 foi um temido delegado de polícia local. Eu não conheci meu avô. Com a família provavelmente fugindo da fome em Lucca, na Itália (ou San Luca, na Calábria, há divergências), ele nasceu no navio que o trazia para a Argentina tempos antes do naufrágio do Titanic. Adulto, deixou a Argentina e foi tentar a vida no Uruguai com o irmão, acabando por se estabelecer em Porto Alegre sozinho, onde casou com Amanda que não era a minha avó e teve dois filhos (meus tios que cheguei a conhecer). Viúvo, casou de novo com uma certa Margarida e teve mais 5 filhos (não conheci nenhum). Pois bem, entre uma diligência policialesca  e outra ele conheceu minha avó, uma desquitada sem filhos, e "pôs casa para ela". Minha avó teve com ele dois filhos: meu tio e minha mãe, que passaram a ser conhecidos nas vizinhanças gaúchas como "filhos das ervas", por serem ilegítimos. Minha avó e seus filhos não podiam frequentar clubes e bailes da sociedade civilizada pois o acesso lhes era barrado por ser minha avó uma mulher de "moral duvidosa". E isto nos anos 1940. Minha mãe cresceu, casou com um Assis, teve minha irmã e eu e se mandou para o Rio de Janeiro, "morar em Copacabana", o must da época. Minha vó, findo o caso com o delegado e com o próprio pai poeta morto tragicamente, foi para o Rio também. Meu avô, sempre ao lado da esposa legítima e quase cego por diabetes, acabaria morrendo atropelado. Já o meu pai era neto de alemães da antiga Pomerânia que, provavelmente fugindo da fome, vieram plantar batatas no sul do Brasil. A mãe de meu pai, Helena Dufke, casou com um brasileiro e, para fugirem da fome, resolveram falsificar dinheiro. Foram detidos, fotografados pela imprensa, mas acho que não ficaram na cadeia porque o resto do imbróglio meus pais não contaram. Do meu avô paterno sei disso e também que morreu dando uma gargalhada na mesa do almoço. Hoje penso: Será que foi o pai de minha mãe quem prendeu os pais de meu pai? Eles eram culpados ou inocentes úteis? Pouco importa, hoje estão todos mortos e vão virar número nos registros genealógicos que começaram lá longe na Barcelona de 1574 com os Parulla fugindo de alguma coisa para a Itália, e na Áustria de 1705 com os Dufke fugindo de outra coisa para a Alemanha. Eu mesma já estou pensando nessas colônias da Lua.


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