10.1.03

Crônica da casa assassinada


Ao colocar as flores no seu colo, ela reabriu os olhos e vi então que já parecia inteiramente ausente deste mundo. Poderia repetir ainda os mesmos gestos dos vivos, pronunciar até palavras semelhantes -- mas a força vital já se despedia do seu corpo, e ela se achava nesta fronteira indevassável de onde os mortos espiam indiferentes a área por onde transitamos. Mesmo assim, por um esforço de sobrevivência, ou quem sabe por uma simples imposição do hábito, tomou as violetas nas mãos e levou-as devagar às narinas -- tal qual fazia nos tempos passados, com a diferença que não sorvia mais o perfume com a mesma sofreguidão, e seu gesto de agora era relaxado e mole. O braço descaiu e as violetas espalharam-se sobre a cama. "Não posso", ela disse. Também nada mais reconheci naquela voz -- era um produto mecânico e frio, um som emitido com dificuldade, audível ainda, mas sem consistência, com a flacidez morna do algodão. Não tive coragem para dizer coisa alguma e fiquei simplesmente ao seu lado, pedindo a Deus, com lábios que não tinham nenhum calor da fé, que me transmitisse um pouco daquele sofrimento. Advertida talvez por essa última consciência dos moribundos, que os faz bruscamente destacar uma minúcia do amontoado em que as formas se aglutinam, fitou-me. Depois, com um lampejo de compreensão, procurou ocultar o que se passava com ela, e voltou a cabeça para o lado. Assim ficamos, perto e distantes, tendo entre nós dois a poderosa presença que nos dividia. Eu jurara que seria sensato e que forçaria a dor a calar-se no fundo do meu coração, não porque me importasse sua repercussão aos olhos alheios, mas unicamente a fim de evitar a criação dessa tensa atmosfera de adeus que circula entre os agonizantes. Vendo-a porém já meio submersa na noite, e tão apartada de mim como se sua presença fosse apenas memória, sentia galopar em meu peito o ritmo de um desespero, de uma raiva que não se continha mais. E por uma bizarra coincidência -- ou quem sabe precisamente pelo inelutável da hora -- eu adivinhava que em nossas memórias subiam apenas imagens do tempo esgotado.

-- Lúcio Cardoso.