27.12.02

Allons enfants de la Patrie
Le jour de boire est arrivé!!!

Por mais que eu beberique o espírito de Adonis, o sangue em minhas veias flui grosso, melancólico e lento. Na minha certidão de nascimento, além do meu nome meus pais carimbaram que mulheres bêbadas são inconvenientes e perigosamente imorais. Fosse alguns séculos antes, eles diriam "Esta menina está é com verminose". Na botica da esquina, segundo a boa tradição farmacológica, me aviariam um bom vinho misturado com resinas, ervas, especiarias, pêlo de asno, estrume de animais, cérebro de cachorro, vesícula de peixe, carne de cascavel, urina de bode e, voilà, problema resolvido. Mas hoje, por trás dos parentes acumulados na ceia de natal, a vida será o que a fotografia quiser que ela seja, a samambaia murcha de minha mãe, o colar de brotoejas de minha avó, as pálpebras diabéticas de meu avô, a ausência germânica de meu pai, o silêncio debruçado de minha irmã, a arrogância gaúcha de meus tios, a juventude apoplética de meus sobrinhos, e mais um iogurte de memórias. Se nesta foto eu nunca fui a lugar nenhum, como posso estar atrasada?