22.11.02


Às três horas de uma manhã inquieta sonhei que a figura de um demônio com cabeça de galo, barriga descomunal e rabo cheio de nós me avisava que as formigas tinham uma missão. Que cada formiga tem uma missão. E como ele mais não detalhou, só ficava repetindo isso vezes sem conta, acabei me desinteressando e acordei. Eu havia suado muito e tive de me levantar para trocar de roupa. Sentada na privada, eu não conseguia mais dormir. Acendi um cigarro e peguei o caderno do penúltimo domingo para ler. Minha cabeça pesava. O coração batia acelerado. As letras se embaralhavam na minha frente. Desviei os olhos para o chão frio e vi a mesma fila de formigas de sempre. Rumando para o box. Eu as acompanhei. A formiga sempre foi um símbolo de organização, industriosidade e previdência. Antigos ritos de fecundidade eram associados à formiga: toda mulher estéril devia sentar-se em cima de um formigueiro para tornar-se fecunda. A terra de um formigueiro simbolizava a energia circulando nas entranhas da terra. Isso foi há muito tempo. Hoje, como se controladas por computador e alimentadas com drogas letárgicas, elas não passam de predadoras indestrutíveis designadas para fazer da Terra o seu posto avançado. Pouco a pouco elas invadiram comunidades pacatas, desertos inabitáveis, palácios reais, os quatro ângulos da Terra. O perecível e o imperecível. Por mais que as esmaguemos, elas se reproduzem a cada vez com mais vigor. Quanto mais as vaporizamos, mais elas mutam. Um dia elas pedirão a minha cabeça e eu não vou poder fazer nada. Um dia, em algum ponto do círculo, eu vou acordar e encontrar o mundo todo roído. Cuspida por um gêiser, descobrirei que nem a Islândia foi poupada. Nesse dia, eu vou deixar o medo de lado e me oferecer inteira ao doce repasto de minha rainha.