8.11.02

Quando te encontrei, de que país estranho foi que imaginei mesmo que tu acabavas de regressar? (Emílio Moura)


Hoje em dia eu sei que o louco é aquele que se deixa afogar pelos símbolos do seu inconsciente, mas houve um tempo em que eu achava que cada um era de um jeito, e eu tinha o meu. Simples assim. Blake, por exemplo, gostava de desenhar pulgas. Ou melhor, espectros de pulgas. Isso mesmo, fantasmas de pulgas. Demóstenes, o mestre da oratória, para conseguir uma perfeita articulação das palavras, costumava encher a boca de pedrinhas, ia para a beira do mar e ficava lá duelando com o barulho das ondas para treinar os seus discursos. Lope de Vega passou a vida escrevendo cerca de 1.800 comédias e outras tantas centenas de histórias. Era tão profícuo que Cervantes o chamava de "monstro da natureza". Pascal, por sua vez, cismava que humor e ironia na literatura eram sinais de mau caráter. Zoilo, antigo crítico dos poemas de Homero, era um comentarista tão azedo e invejoso que ficou para a posteridade como um crítico faccioso e medíocre. Rui Barbosa, sempre vigilante nos cuidados com o vernáculo, fazia de tudo para evitar o encontro de consoantes dentais. Em vez de "dentro do", tascava um "dentro no". Já Cassiano Ricardo chegou a não admitir a existência do verso livre: "Basta ser livre pra não ser verso." Manias? Loucura? Pode ser. Tem gente cuja profissão é estudar o ritmo na poesia clássica antiga. Eles se orgulham de saber que o verso aristofânio são 2 dímetros anapésticos, separados por diérese e dos quais o segundo deve ser catalético. Se você lhes mostrar um verso como "Vejo-te, mísero ser", para eles isso não passa de uma tripódia catalética em 1 sílaba. Ainda bem que o verso livre nos livrou disso tudo. Cada um tem o seu jeito, eu tenho o meu. Posso passar horas dentro de uma livraria ou um sebo. Esqueço da vida. Tenho curiosidade de ler coisas como "Frívola City", de João do Rio, "Mixuangos", de Valdomiro Silveira, e a canção do Boi Surubi. Alguém já ouviu falar de Quinto Cúrcio?