30.10.02

Beowulf precisou de 3.183 versos para relatar suas façanhas heróicas no início da época medieval. Foi modesto. Mesmo depois de velho e caquético, o rei lutava com monstros, dragões e sereias igualmente monstruosas. Já os franceses, bem mais verborrágicos, lançaram mão de 30.000 versos para fechar o "Romance de Tróia" pela pena de Benoit de Sainte More. Me recuso a ler tanto papel. Quem tem tempo pra isso hoje em dia? A "Divina Comédia" por sua vez tem 100 cantos. Um repositório de conhecimentos enciclopédicos, só esta frase me dá preguicinha. Nunca li a obra-prima de Dante de cabo a rabo. Toda vez que a via pela frente ficava em dúvida se começava pelo Inferno, pelo Purgatório ou pelo Paraíso. Verdade que a inscrição da porta do Inferno sempre me atraiu mais: "Lasciati ogni speranza, voi ch' entrate!", o que significa mais ou menos "tirem o cavalinho da chuva daqui para a frente". Grande coisa. Os melhores ficavam no Limbo: Sócrates, Platão, Homero e o resto da galera. Como estou bocejando e este post já está ficando extenso demais, escolho pra ler uns poeminhas safados e de tamanho bem mais conveniente, o que os sofisticados gostam de chamar de haicai.


"troco um chumaço de poesia pelo amor da macaca
sou um romântico cubalibre dançando conforme a lua"

(de Charles, em "Perpétuo Socorro")


"beijos fecham a mala
o trem parte mudo
eu, poeta, apagado no cinzeiro
sem a coragem das noites
sem a alma dos vagabundos
logo eu
pronto por não ter planos maiores
que três versos faltando num poema maluco
enterrado no bolso sem um aceno
alheio à cor das bandeiras
tremendo que nem assovio

o trem parte mudo
eu canto fora dos trilhos"

(de Ronaldo Santos, em "14 bis").