23.9.02

A espera da hortelã

Numa casa às escuras não dá para se fazer muita coisa, principalmente se faltou luz. Nestas horas me deixo levar por um maneirismo acentuado e repito dezenas de frases diferentes com o mesmo sentido. É uma forma de me distrair e esquecer que passei a tarde toda sentindo um cheiro de hortelã sem que houvesse à minha volta qualquer motivo concreto para isso. Seria fácil se eu pudesse atribuir esta escuridão de hortelã ao cansaço. Exasperação sensorial barroca, eu ouviria duras críticas nesse sentido. Minha pobre literatura egocêntrica seria alvo não-preferencial de tudo que é tipo de mentalidade geocêntrica. Ponto para a crítica necrografista. Alhear-me nestes pensamentos pode não produzir resultados mas faz com que por um minuto eu me esqueça do cheiro hipnótico da hortelã, com que eu me esqueça do todo contido no detalhe, um perverso vício de raciocínio que se alimenta da minha natureza confundindo-me com ela. "Quando me procuro, nunca estou em casa." Acho que foi Hume quem desenhou esta frase. É possível que na casa dele faltasse luz também. Minha lógica é rasteira e se estende só até a mesinha-de-cabeceira, onde se apóia e ergue a cabeça para me procurar pela cama. Eu disse que estava escuro. Está escuro e o cheiro de hortelã grudou na minha pele como se tivesse medo de cair. Eu quero ir até a cozinha mas tenho medo também de cair sobre os móveis e nunca mais levantar. De cair no chão e não saber me arrastar. Como uma boneca sentada numa cadeira, eu esperava que me tirassem dali. Esperava que me levassem para passear num carro vermelho ou até o cinema da esquina, que antes de dormir me contassem uma história bem bonita para eu poder pegar no sono e deixassem a luz do abajur acesa depois de me prometer que se eu fosse uma menina boazinha, amanhã não precisaria mais de tantas nebulizações. Eu esperava.
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