13.9.02

Nota de rodapé

Amigos e familiares que moram no Rio me ligam apavorados dizendo que a população está refém do narcotráfico. Ora, não seria novidade, qualquer um já ouviu esta frase milhares de vezes veiculada na imprensa. Só que agora ela é mais concreta do que nunca. Durante a rebelião de Bangu I comandada por Fernandinho Beira-Mar, pontos estratégicos da cidade estavam controlados por grupos reunidos em suas esquinas. Da zona norte à zona sul. A mídia não entra nos detalhes, só quem estava na rua viu. Boato ou não, a notícia que circulou no boca-a-boca é que se a polícia invadisse a cadeia, os homens de Beira-Mar, soldados do CV, sairiam pela cidade detonando a população. Por isso, a governadora teria voltado atrás. A classe média, me dizem, está apavorada. Nos supermercados, as pessoas nas filas sussurram sobre a situação. Todos no fundo querem mais é que o Exército, numa investida à Bush, bombardeie os morros e acabe de vez com o Poder Paralelo. O que não vai acontecer nunca, e não por uma questão de direitos humanos, mas porque o poder paralelo é a outra cara do poder instituído. A ovelha negra que o abastece de dinheiro. E a população, nós, não passamos de uma carta no jogo da negociação. É guerra sim. Uma solução? Legalizar as drogas? Não sei se adiantaria, o índice de sequestros e assaltos a bancos aumentaria ainda mais. Afinal o dinheiro tem de sair de algum lugar. Seria um estrangulamento, não uma solução. Talvez a solução nem exista. Teremos de conviver eternamente com poderes em conflito. Nós já vimos este filme. O Oriente Médio vê este filme quadro por quadro. Beira-Mar quer a hegemonia do CV em nível nacional. Quer o controle do crime organizado. Os governos do Rio sempre negociaram com o poder paralelo porque sabem que não há saída. E alguma coisa me diz que esta parcial vitória de Beira-Mar sobre seus rivais tem uma importância política maior do que possamos imaginar. Não ouso aventurar qual seja. Se a unificação do poder paralelo, desejada por Beira-Mar, significar a volta da tranquilidade à população, que fazer? Quanto mais dividido um poder, maior a chance de os conflitos internos vazarem. Mas não sei, só posso especular. E é o que estou fazendo agora. Sinto-me confusa também. Tenho medo do que possa acontecer como qualquer um. Eu só sei que a minha cidade tem 2 governos: o fantoche e o real. E este é o do Poder Paralelo.
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