7.9.02

Estou sem fluido e meus fósforos acabaram. Há três horas tento acender um cigarro no fogão sem chamuscar o cabelo. Eu não quero ir à rua só para comprar uma caixa de fósforo. Está chovendo e eu não devia fumar. Não devia. Dou uma volta pela casa e abro uma gaveta após a outra atrás de uns malditos fósforos. Em uma das gavetas há uma coleção de Zippos sem fluido. Nas outras não vejo fósforos. Devo tentar o fogão novamente? Está chovendo e se faltar luz eu não vou poder acender um cigarro no automático. Quando chove costuma faltar luz. Devo acender um cigarro agora? Devo acender todos de uma vez logo para me prevenir? Tenho vários maços de cigarro em casa e nenhum fósforo. Eu não devia ter tantos maços de cigarro em casa porque eu não deveria fumar. Sento aqui então e começo a escrever isto. Eu não estou fumando embora tenha vontade. Eu não deveria ter vontades. Ouço os pingos da chuva lá fora. Um pingo atrás do outro. Logo formarão uma poça. A poça ainda não existe. Está na minha imaginação. Eu não deveria imaginar coisas. Olho para a minha mesa e vejo o cinzeiro cheio de guimbas. Eu vou guardá-las pois os cigarros podem acabar uma hora. Eles sempre acabam. O telefone toca. É engano outra vez. Eu não gosto de atender telefone. E ele sempre toca. Descubro o reflexo do meu rosto na janela. Estou vestindo um casaco vermelho. Eu uso óculos. Uso não porque eu queira, porque preciso. Por que preciso? Eu não deveria precisar. Hoje estou chateada. Estou chateada porque sou chata. Sou chata e escrevo coisas chatas. Escrevo coisas chatas porque não estou fumando, embora se fumasse também escreveria coisas chatas. Chato é chato e ponto final. Devo acender um cigarro agora?