28.8.02

Sonhei que eu entrava no Ovo do Dia e pedia um bate-entope. Sentava numa mesa vazia e uma mula-sem-cabeça me servia um sanduíche de bife à milanesa. Enquanto eu mordia o pão senti meus pés nus afofando a serragem espalhada pelo chão. A mula, que não tinha cabeça mas falava, puxou assunto: "Sou do tempo em que mulher tomava Regulador Xavier, homem usava Brylcrem e os dois limpavam a bunda com Tico-Tico." Tu é véia, mula? A mula virou assim meio de lado, esticou os beiços vermelhos e muxoxou "Néris, assim assim. Sou a mula-sem-cabeça de James Dean". Não diz -- eu fiquei extasiada. Eu daria tudo para ser a mula-sem-cabeça de James Dean. Ela percebeu o brilho em meus olhos e ciscou o chão com a pata dianteira: "E não é?" Com o rabo do olho reparei que ela usava galochas. Vai chover, mula? "Só se São Pedro quiser", ela respondeu dando de ombros. Tentei voltar ao assunto de James Dean mas ela cortou logo pra dizer que se chamava Desdêmona e que à noite trabalhava no circo mas tinha medo de carnaval porque não gostava de gente mascarada. Eu sorri porque me lembrei de uma música que não valia a pena cantar. Lá de dentro da cozinha do bar vinha um forte cheiro de cebolas fritas e ouvi minha mãe apertando o pescoço de uma galinha. A mula fez que não viu minha perturbação e começou a cantarolar uns versos enquanto se afastava. "Leões cheios de sombra e de melancolia." Eu forcei a memória para lembrar do poeta mas o sonho já estava desbotando. Mula? Eu quis chamá-la para dizer que não tinha mais medo do escuro porque agora tomava comprimidos para dormir. Mula? Eu queria dizer que você já não me mete medo porque depois da televisão nada mais me assusta. Mas a mula já estava no ponto de ônibus e pegou o Barão de Drummond antes que eu pudesse alcançá-la, antes que eu adormecesse de novo.
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