21.8.02

"O primeiro parágrafo de tudo é como um iceberg. Quem tem medo contorna. Quem tem pressa afunda." Fiquei olhando para a cara dele sem saber se ele estava falando de literatura ou da minha vida. Se pelo menos ele tivesse agregado um navio a sua imagem de polichinelo, eu teria me situado melhor. Minha vida não era nenhum Potemkin, mas também não chegava a ser o Titanic. Ficava ali no meio, fazendo marola, como este chope choco que estamos bebendo agora. Marcos, o carinha que está aqui na minha frente contra a minha vontade, é professor de literatura e crítico de arte nas horas vagabas. Colabora com resenhas literárias para jornais que nunca leio e tem predileção por citar nomes de escritores mortos que nunca lerei, o que sempre me deixa com o pé atrás. O que eu estou fazendo aqui com ele? Pois é, eu estava sozinha em casa e de repente me vi diante de duas opções: o suicídio ou lavar um tanque cheio de roupa suja porque eu já estava ficando nua. Como possuo um temperamento naturalmente vegetativo, achei melhor sair para beber no bar de sempre. E adivinhe quem estava lá? Ele deu um tapinha calculado em minhas costas e me convidou para a mesa dele que ficava na pior localização: de frente pro banheiro. Eu não podia reclamar pois vivia dura e por isso mesmo era figurinha repetida naquele muquifo, onde minhas contas eram sempre penduradas. A situação andava tão braba que se eu quisesse me matar teria de me jogar na frente do metrô porque não tinha grana nem para comprar barbitúricos e morrer em grande estilo, além do que morava no segundo andar do prédio. Nada feito. Falta de dinheiro, roupa suja pra lavar, comida a quilo, TV aberta, filar cigarros, pendurar contas, eu já estava ficando com síndrome de abstinência de glamour. Tinha saudades da rota 66 em plena Avenida Brasil. E assim as horas foram passando, minha cabeça rodou e eu comecei a ver vários professores de literatura na minha frente, todos me falando sobre o que a literatura deve ser e o que nunca ela deve ser. Eu ouvia um coro grego: "Escrever é a arte de enganar o leitor sem passá-lo para trás." Onde é que eu tinha lido isso mesmo? Me lembrei de que eu não havia jantado, sequer almoçado. "Você está se destruindo, devia se preocupar em publicar seus textos em vez de ficar bebendo feito um gambá. Diletantismo não leva a nada." Então eu era um gambá diletante? Acho que eu estava ficando azul. As palavras dele eram bolas numa mesa de ping-pong. "Desça dessa cruz. Alguém pode estar precisando da madeira." Qual era o problema dele afinal? Um clichê aqui, uma piadinha cretina acolá, seria mais original se tivesse me oferecido um sanduíche de salaminho. "Você é neurastênica?" Não até que você me obrigue. Nessa hora formou-se uma rodinha de pagode na mesa ao lado e eu comecei a cantar junto com eles. Meu amigo fez cara de nojo e murmurou um pra mim chega só para que eu ouvisse. Deixou uma nota de 50 paus sobre a mesa e foi embora sem tchaus. Eu sorri de leve para os pagodeiros, guardei o dinheiro na bolsa e pedi ao garçom por favor uma mesa ao lado da janela. Ainda é cedo.
-